27 outubro, 2005




JOÃO DE NADA

No meio de um sonho troncho, veio ele e, sem compaixão, disparou: - você é João de Nada. Eu disse, Peraí! Tenho um nome, foi ela quem me deu. Respondeu, que nada! Tais aqui por acaso e teimosia. Por acaso meu e dela teimosia. Não valia mesmo nada. Nem a luz, nem a dor, nem a pena. Valia muito menos, que uma foda mal dada, uma camisinha furada, um aborto mal feito, uma mísera mamada, um registro direito, um batismo imperfeito, que uma fralda cagada. Vim aqui pra tomar, nessa magra noite de sono, o que tu não mereces ter; não mereces dormir, não mereces sonhar, não mereces acordar, não mereces viver, não mereces existir, muito menos ter nome. Dá ele pra cá! Pra que careces de substantivo que te diferencie de outro ser? Pra assinar isso aqui? Pra assinalar os erros dessa existência fracassada? Devolve o que não é teu! O que jogas sem pena na lama. Natimortos não têm herança nem direito de sonhar. Vai-te embora, escolhe a privada mais suja e te atira dentro. É bem lá que se sepulta abortos, sem direito a choro, velas ou cruz de indigência. É Lá que apodrecem Cicranos, Fulanos de Tal, Beltranos e Joões Ninguém.

Um comentário:

Raquel disse...

Puta que pariu, menino!!!!
O melhor que li aqui até agora.
Tu é foda mesmo. Quando sai mesmo aquele livro teu???
hehehehe

Beijos. Se cuida. E "keep walking" como diria nosso delicioso Johnnie Walker. ;)