19 dezembro, 2005

AMADURECER APODRECE
Eu vi uma frase voando por aí, nem ruim nem boa, “O segredo da vida é escolher as comédias e esquecer os dramas”. Pois é, acho que ando escolhendo os dramas e esquecendo as comédias. Coisa assim, que nunca foi do meu feitio. Sei lá, ando levando a vida tão a sério, ando me levando tão a sério, nunca mais eu ri de mim. E olha que rir de mim é a minha especialidade. Mas então, ando pesando demais, argumentando demais, me cobrando demais. Ando me sentido aquela tartaruga que os indianos acreditam que carrega o mundo nas costas. Uma tartaruga velha, trilenar, vagarosa, uma tartaruga que só sabe pensar no que pensa, que anda se perdendo no mundo das idéias, que anda confundindo idéia com realidade. Se fosse confundir sonho com realidade seria bom, muito bom, seria loucura o que é bem melhor do que essa sanidade deformada. A Mulher me disse um dia, meio que por provocação, que eu era um “doente antropológico”. Reagi furioso com todo poder de argumentação que presumo ter e combati com gana a idéia de ter tal enfermidade. Vai ver sofro mesmo de excesso de sanidade e me aproprio agora da frase de um inimigo - é humilhante apropriar-se da frase de um inimigo, admitir o acerto de um desafeto, mas às vezes é inevitável – “O obvio é aquilo que está na ponta do seu nariz, mas mesmo assim você não consegue enxergar”. E é isso, mesmo pensando em tudo no mundo, mesmo carregando o mundo, sendo forte pelo mundo, mesmo pensando sobre pensar, não consegui enxergar que ando pensando demais e que isso me deixa muito cansado. Ficar velho só de pensar, ficar saudoso da meninice que tive ainda ontem, da inconseqüência gostosa que a gente sustenta na juventude. Logo eu, que sempre fui tão menino, ando homem demais pro meu gosto, levando tudo com a gravidade digna de meu pai. Logo ele que eu combati tanto pela capacidade de nunca sorrir de verdade, de nunca mostrar os dentes. Muito me assusta essa tal maturidade, esperada como uma dádiva e sentida como uma doença. Ando tendo inveja das irresponsabilidades dos outros, ando querendo aprontar das minhas e não sei mais se sou capaz. Até Tom Zé, o meu amigo mais menino (ele nem sabe que é meu amigo) andou me jogando isso na cara, numa música que fez um ano antes que eu finalmente nascesse, “... porque então essa mania danada, essa preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de sorrir tão sério, de chorar tão sério, de brincar tão sério, de parecer tão sério, de amar tão sério, de sorrir tão sério... AH MEU DEUS DO CÉU, vai ser sério assim no inferno...” Pois é Zezé, acho que to sofrendo de “Complexo de Épico”, tô precisando assistir “Os Idiotas” de novo, de alguma cartilha hei de aprender. Tô precisando ler Miller de novo, tô precisando rir de Cortazar, to precisando usar bigodes de Dali, tô precisando apreciar os arroubos de Duchamp, tô precisando reaprender a comer banana só com os dentes de baixo.

3 comentários:

eliza disse...

meu amor, isso é só ser humano. e não há guarda-chuva contra a serhumanice.

mas é verdade que a gente tem que brincar mais nessa vida. vamo no parque?

LC disse...

Eu li o texto de uma vez só e foi inevitável não se reconhecer nessas linhas.
Ah meu amigo...como você precisa deixar de se preocupar com tudo. Como nós precisamos quebrar certos padrões.
Aonde a gente vai chegar? Ensinam a correr, mas pra onde?
Espero demais o dia em que a gente vai poder se preocupar com outras coisas, melhores e piores também, mas que sejam essencialmente diferentes.

Rev. S disse...

"Complexo de Épico"

disse tudo
(: