21 dezembro, 2005


A ELOQÜENCIA DE UMA CARA NO ESPELHO
A realidade é um espelho; por trás desse espelho só tem a parede: é reflexo, é superfície pintada: nele Alice não entra, não penetra e não é penetrada conforme o seu intimo mais deseja. A verdade não reflete, não representa, não reproduz: ela não é um espelho, não é espelho de nada, se parece espelhar é só ilusão. A verdade é espelhamento, isto é, além de refletir o mundo circundante, como fantasmas em claro escuro, faz pressentir que algo se move por trás, algo vive e se agita além da nossa imagem e das imagens do mundo. A verdade não carece de explicações: elas são apenas um artifício para semi-esconder aquilo que se move do outro lado, ou aquilo que existe do outro lado. Alice atravessa o espelhamento que ali é chamado de espelho por falta de um outro nome. Mas o que se move atrás e além do espelhamento não é aquele mundo de Alice, não é um conto de fadas: o espelhamento não é atravessável: do outro lado podemos apenas pressentir existência, movimento, algo que escuta, algo que respira, algo que deseja e sonha: e esse algo, estranhamente, diz respeito intimamente a cada um que chegue perto.
Ps. Fala retirada do roteiro de um filme por fazer. A imagem foi docemente usurpada do bom e velho Getty Images

Um comentário:

li disse...

acho que fiz um comentário aqui que se apagou sozinho. eu sei que eu disse que a realidade é mais ou menos uma leitura de algo na linguagem do espelho. uma coisa assim indecifrável, ininteligível.

mas essa fala é tão complexa qto a cabeça de twedelum e twedelee. chega deu um nó.